Entre o precipício e a caverna: a repetição das sombras

Sempre que entro em redes sociais, me questiono: devo me expor politicamente ou isso me prejudicaria? No dia de hoje, decidi não me distanciar de mim mesma, porque desde o início deste século, parece que somos empurrados  para o ralo.

E quem nos empurra nessa direção? Se dinheiro é poder, quem detém o capital sente-se autorizado a fazer quase tudo para aumentar a própria conta bancária. Inclusive mentir. E tendo dinheiro, é possível mentir muito. Não é o que vemos por aí?

Confesso que já vivi, em outra escala, um período em que a mentira passou a disputar espaço com os fatos. A história registra diversos momentos em que esse método produziu consequências desastrosas.

Os tempos atuais nos conduzem por um caminho sombrio. Há um caldo prejudicial espalhado pelas comunicações: a pátria que perde a soberania, a destruição do meio ambiente, o pensamento rígido. O ódio e o estímulo às armas penetraram na sociedade brasileira, que ainda acredita que o crime deixará de existir se os estudos ocorrerem em escolas cívico-militares, requentando as aulas de OSPB, disciplina obrigatória nos tempos da ditadura.

San Salvador seria um exemplo a ser seguido? Ora, convenhamos: prisão sem julgamento é barbárie. Queremos retornar à Roma Antiga?

O ódio e o medo nos atravessam com muito mais rapidez do que o amor, a compaixão e a solidariedade. Preferimos rir de bobagens a dedicar tempo à compreensão da realidade, até porque ninguém aguenta mais a desgraceira diária. Ar, solo, água e terra: tudo demonstra que a Terra reage às agressões humanas.

Método simples?

A memória se fixa por meio da repetição. Basta lembrarmos das propagandas que nos induzem ao consumo. Trata-se de uma técnica elementar da educação e da publicidade. E ela permanece por mais tempo quando envolve visão, tato, audição e ação.

Há tempo para refletir antes de compartilhar? Não. Estamos apressados na busca de algum abrigo. O medo nos impulsiona a agir e, quando mobiliza sentimentos intensos, o cérebro fixa a experiência na memória. Diante dele, entramos em estado de alerta e sentimos a urgência da proteção.

O mecanismo é tão simples que todos o utilizam sem perceber.

Fixação da memória

Manoel de Barros, em seu poema “Uma didática da invenção” ilumina esse processo: O verso “Repetir repetir — até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”.

Livros foram escondidos da população ou queimados em praça pública.

Artistas sobreviveram através dos séculos porque foram protegidos por mecenas, reis e imperadores, a igreja católica, que sempre reconheceram seu valor.

Sentir ódio ou repulsa por artistas, professores ou escritores sem conhecer suas histórias, e afirmar “odeio essa pessoa” apenas por que pensa diferente de nós? Isso é um disparate. Atrás de cada indivíduo existe uma trajetória. Uma calúnia repetida inúmeras vezes acaba adquirindo aparência de verdade em nossa memória.

Por que estamos sendo levados a odiar quem diverge de nossa opinião?

A vida não nos oferece tempo para tudo. Se as redes neuronais passam a favorecer o pensamento superficial, o cérebro escolhe o caminho mais fácil e desaprende o esforço da reflexão. Tudo isso, junto e misturado, corrói a lucidez.

Somos uma só humanidade.  

Retomei os livros de McLuhan, educador canadense do século passado, que fez parte de meus estudos universitários.

Suas frases icônicas permanecem válidas. Vejamos:

“O meio é a mensagem.” — Aqui, a palavra “meio” significa o local onde a comunicação ocorre. E isso você sabe, pois conhece as mídias sociais, o celular, o computador, a rádio, o jornal, a televisão.

“Não existem passageiros na Nave Espacial Terra. Somos todos tripulação.” Ora, uma tripulação existe em um meio de transporte. Neste caso, a nave — metáfora que nos reporta à Terra — é o lugar onde vivemos.

McLuhan também disse: “Nós moldamos nossas ferramentas e, logo em seguida, nossas ferramentas nos moldam.”

Essa frase nos obriga a pensar no que conhecemos e como esse conhecimento transforma a nossa vida.

Pense em qualquer coisa: uma informação verdadeira ou fake news. O que cada uma produz em você?

Um exemplo simples: quando uma sinalização de trânsito não existe ou não foi vista, você corre perigo? Trava ou acelera?

… pausa para pensar…

Confesso que já vivi, em outra escala, a destruição da democracia. Foi o mesmo método utilizado por Hitler: transformar a mentira em aparência de verdade e utilizar os meios de comunicação para disseminá-la.

Foi em 1963. Lembro-me bem. Espalhavam que comunistas comiam criancinhas, que Stalin dominaria o Brasil e que o país quebraria. Empresários ampliavam a vigilância em razão das greves e das sabotagens. Estudantes protestavam contra o acordo MEC-USAID e recebiam gás lacrimogêneo. Artistas e escritores exilavam-se para preservar a própria vida. Enquanto isso, jovens americanos morriam aos milhares no Vietnã.

Pessoas que questionam incomodam. Mas por quê?

Sinto muito, mas antevejo um precipício abrindo-se à nossa frente. E sinto muito se você chegou até aqui com algum desconforto.

Continue. O cérebro atribui valor ao que nos incomoda. Talvez você amplie sua rede neuronal.

Então, deseje saúde e sigamos.

És uma pessimista, dirão.

Todo ser pensante tende ao pessimismo quando vê, dia após dia, a destruição do pensamento crítico, do meio ambiente, da pesquisa e da lucidez pública. Vê também o retorno do negacionismo, das acusações sem provas e das narrativas construídas para substituir os fatos.

Há mentiras circulando. Alguém as financia. E há, muitas vezes, complacência diante delas.

Foi o conhecimento humano que nos manteve vivos. Foi nossa capacidade de perceber, analisar e agir que nos permitiu avançar como sociedade.

A valorização da imagem, sem atenção ao significante, ao significado e ao que permanece subjacente, deu voz e poder aos imbecis. Aqui recorro a Umberto Eco.

Precisamos sair do conforto e sacudir a preguiça neuronal.

Para o bem e para o mal, vivemos sob desafios permanentes. Carregamos dentro de nós a tensão entre a luz e a sombra, como observou Carl Jung. E, ao alimentar as sombras, o que poderá restar senão mais sombra?

Nossos sentimentos são manipulados de forma escancarada nas mídias sociais. O objetivo parece ser confundir moral com ética, religião com política, direitos com privilégios e desejos com necessidades.

Pensar dá trabalho. Pensar exige energia. Então, para evitar o cansaço, deveríamos simplesmente parar de pensar?

Quem permanece na Caverna de Platão talvez não perceba que a luz ficou para trás há muito tempo.

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MARILICE COSTI


É escritora, arteterapeuta, arquiteta e urbanista, com atuação dedicada à integração entre arte, conhecimento e cuidado em saúde mental.
Mestre em Arquitetura pela UFRGS, pós-graduada em Arteterapia e Dependência Digital e capacitada em Neuropsicologia da Arte, também atua como docente em pós-graduação em Arteterapia na FAMAQUI/PSIQUE.
Premiada em literatura com o Açorianos e finalista no Prêmio Brasil Criativo/SP pelo seu trabalho na revista O Cuidador – Orgulho de Ser, como editora-chefe e capista em suas 40 edições.
Em 2026, lança seu décimo livro, A palavra livra e lavra — uma nova expressão de sua trajetória dedicada à força transformadora da arte e da palavra.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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