Marilice Costi
Trajetória e Missão
Dizem que, quando temos uma missão e a cumprimos, ganhamos saúde e somos mais felizes. Talvez por isso minha história sempre tenha caminhado ao lado da literatura. A poesia me sustentou em tempos sem psicologia; os diários, as cartas, a escrita — tudo isso faz parte de quem sou.
Depois de me formar em Arquitetura e Urbanismo, segui para o mestrado na UFRGS, onde pesquisei a luz, a cor e suas influências biológicas, psicológicas e ambientais nas pessoas. Eu ainda não sabia, mas esse mergulho no comportamento humano já apontava para a missão que viria.
Pouco depois, um simples folder mudou meu caminho: a Especialização em Arteterapia. Ali, todos os conhecimentos que eu havia acumulado começaram a se integrar. Era como se peças soltas finalmente encontrassem seu lugar.
A descoberta da minha missão surgiu a partir de um encontro com familiares em um Centro de Atenção Psicossocial de Porto Alegre. Eu sabia exatamente o que os familiares sentiam, suas dúvidas e inseguranças. Saí dali com uma certeza: eu queria dar visibilidade aos “invisíveis cuidadores”.
A partir daí, minha história tomou forma. Encaminhei uma Oficina de Dançaterapia e Arteterapia para familiares ao FUMPROARTE. “Arte para cuidar? Isso lá era coisa para a Arte e a Cultura?” Não passou. Anos depois, o projeto Fênix: arte ao cuidador recebeu PRONAC do MINC, mas não consegui patrocínio. A sociedade ainda não estava pronta.
Então ofereci uma Oficina de Arteterapia ao Centro de Saúde Modelo. Era início do século XXI, a Arteterapia era pouco conhecida. Só duas décadas depois é que essa terapia passou a ser reconhecida e integrada ao SUS através das PICs.
Minha história também se entrelaça com a da empresa Z.D. Costi & Cia. Ltda., que entrou em concordata pouco depois do Plano Collor. Busquei resgatar a arquitetura histórica do núcleo fabril e preservar a memória. Procurei a FIERGS, que havia homenageado meu pai com a medalha de Mérito Industrial em 1975, mas não se encontrou solução. No entanto, na última reunião ouvi: “A senhora sabe… a senhora é a real herdeira de seu pai.” E isso passou a ecoar em mim até que fundei SANA ARTE. Tornei-me editora e produtora cultural, quando história, trabalho e missão se uniram para cuidar de pessoas através da arte, da escrita e da vida.
Minha história e minha missão caminham juntas, construída passo a passo entrelaçando vozes, cuidadores e ações.
Conhecimento
O conhecimento sempre foi o eixo estruturante da minha trajetória. Desde a
infância, o contato com livros, arte e diferentes formas de pensamento despertou uma curiosidade permanente, compreendida não apenas como acúmulo de saber, mas como forma de compreender o mundo e o ser humano em sua complexidade.
A formação em Belas Artes, Arquitetura e Urbanismo ampliou meu olhar para o espaço, a percepção, a estética e os aspectos simbólicos que atravessam a vida humana. Fiz muitas capacitações qualificando escrita, lugar, artes e comunicação. No mestrado em Arquitetura, aprofundei meus estudos sobre luz, cor e ambiente, investigando seus impactos biológicos, psicológicos e emocionais no bem-estar das pessoas.
A pós-graduação em Arteterapia consolidou esse movimento, articulando arte, psicologia e cuidado como campos que considero indissociáveis.
Durante a pandemia, capacitei-me em Neuropsicologia da Arte para Arteterapeutas e sigo aprofundando meus estudos e me atualizando em Congressos de Arteterapia, ministrando oficinas, fazendo relatos de experiência e trocando com muitos colegas de ofício.
Minha participação em cursos voltados ao empreendedorismo social e cultural e à sustentabilidade de projetos em saúde ainda contribuiu para a criação de iniciativas inovadoras, alinhadas a valores éticos e responsabilidade social.
Em 2026, concluí a pós-graduação em Dependência Digital, expandindo conhecimentos sobre impactos do uso excessivo de tecnologias na saúde emocional, nos vínculos e na construção da subjetividade contemporânea.
A escrita acadêmica e literária caminharam junto nesse percurso, permitindo integrar ciência, sensibilidade e reflexão para que as ações se tornem mais assertivas e reforcem meu comprometimento com o cuidado, a criatividade o afeto.
Experiência
Às vezes, a vida nos apresenta desafios que não pedimos. E é na forma como reagimos a eles que vamos acumulando experiências, aprendizados e camadas. Os desafios que vivi me tornaram quem sou: um ser incompleto, em permanente construção. Minha experiência vem de longe: aprendi com meus pais e professores e terapeutas, com leituras e, sobretudo, com o apoio generoso de amigos. Entre dificuldades e barreiras vencidas, as conquistas de meus filhos passaram a ter um valor imenso que se integraram ao meu caminho profissional. Como arquiteta, especialista em saúde atuei em várias áreas, entre elas, a docência. Esse percurso me ensinou a observar ambientes, rotinas, pessoas e comportamentos com mais atenção — e a entender que cuidar também é criar condições para a vida acontecer com mais dignidade, mas adoece.
A criatividade abriu caminho para eu me comunicar com meu filho atípico — relato neste artigo e no livro Como controlar os lobos?. Além de minha experiência de mãe, profissional e escritora, me dediquei na minha empresa, produzindo livros e a revista O cuidador até que uma crise nacional provocou o encerramento de um projeto que eu imaginava levar por toda a vida. Na hora do acerto final com os assinantes, o carinho de todos me sensibilizou muito. Transformei essa dor em movimento. Através de financiamento coletivo, criei a Enciclopédia O Cuidador online, e suas 40 edições se tornaram acessíveis na internet por um valor irrisório. No final do ano, minha exposição Imagens que cuidam: as capas da revista O Cuidador, no CCCEV, em Porto Alegre, demonstrou o processo artístico das imagens de capa.
A arteterapia liberta, gera alívio, abre caminhos. Desde 2004, com empatia e escuta, facilito o processo arteterapêutico a quem deseja resolver conflitos, mudar de rota, receber suporte em momentos difíceis, descobrir potenciais, fortalecendo e tratando o que importa em sua vida, valorizando sua singularidade.
Atualização Constante
Meu trabalho é comprometido com a ética, que orienta minha atuação. O cuidado humano exige sensibilidade e enfrentamento aos desafios impostos por transformações sociais, tecnológicas e culturais do nosso tempo. Por isso, mantenho uma postura permanente de estudo, reflexão e aprimoramento profissional.
Essa formação fortalece uma abordagem integrada, que une conhecimento técnico e escuta humanizada.
Entendo a atualização não como resposta a modismos, mas como abertura consciente às mudanças do mundo, buscando práticas que dialoguem com o presente e preservem o essencial: o cuidado, a dignidade e a singularidade humana.
Persigo minha missão de vida: cuidar das pessoas e dar suporte a quem sofre, acreditando cada vez mais no poder dos recursos artísticos para tratar emoções e sentimentos, os quais integro à escrita criativa, para abrir caminhos, iluminar interiores, despertar o escondido atendendo aulas e palestras.
No meu Blog, comunique-se. Gosto dessa troca — ela mantém viva a chama do cuidado.