Os desafios urbanos só chamam nossa atenção quando nos atingem diretamente — como aconteceu nas enchentes. Quando nos sentimos seguros em uma cidade, percebemos como o planejamento, as políticas públicas e o cuidado são essenciais para enfrentar os ciclos da natureza e da vida.

Cresci em uma casa com pátio, pomar, jardim e convivência comunitária. Ali aprendi que equilíbrio, organização e cooperação sustentam famílias, negócios e sociedades — aprendi apenas observando as atitudes e os cuidados das pessoas.

As cidades não tem recebido os cuidados que aprendi no meu quintal, na rua da minha infância dividida por um canteiro onde minha mãe, Alice Sana Costi, plantou palmeiras e azaleias.

Entre perdas e a Arteterapia

Entre mudanças, acertos e dificuldades, a trajetória da empresa da minha família me mostrou que uma empresa é feita de pessoas, de ideias possíveis e de trabalho dedicado. Quando entrou em concordata, busquei soluções, estudei, conversei com empresários, analisei documentos e compreendi o valor da gestão humana e dos ciclos industriais, do peso das holdings que engolem mercados, dos bancos que lucram com a inflação e das manipulações político-financeiras.

Seu Demétrio, meu pai, repetia: “Minha filha, a riqueza que nunca poderão te tirar será o teu conhecimento.” Ele estava certo. Esse aprendizado me levou à docência, às palestras e à escrita — que nasceu ainda na infância, quando eu vivia cercada de livros e histórias, quando datilografava os discursos de minha mãe, Dona Alice.

Foi por meio da criatividade que dei conta dos meus ciclos. A arteterapia — que eu praticava sem saber o nome — me ajudou muito a dar conta da vida e a me comunicar com filhos e a entendê-los em momentos em que eles só tinham a mim. A arte, a literatura e a cultura sempre foram minhas ferramentas de resistência e reinvenção.

Estou no ciclo final da jornada. Isso me dá o direito de afirmar que nos movemos em ciclos e que, quando o mundo parece desordenado, é a sensibilidade que nos salva, o conhecimento que nos guia e a coragem que nos mantém em movimento.

A exaustão é coletiva?

Sinto-me dentro do filme 1984 e do livro Não haverá país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Ambos sob a égide da distopia. Esse mundo que invade nossa privacidade sem bater à porta, que comanda desejos e desvarios, que exibe superficialidade e estupidez como bandeira, que negam fatos, não faz parte de mim.

Há violência escancarada, desrespeito, excesso de informações, comunicações exaustivas — e isso reduz a nossa energia. Tornamo-nos voláteis, dividiram o país ao meio, descaracterizaram o pertencimento, essa pátria interna que nos dá chão. Nada será como antes depois dessa velocidade das comunicações.

Não quero aprender a usar um programa novo a cada dia, a ter que aprender a controlar golpes, perdendo tempo precioso com botões, com scroll, com a sedução das imagens. Cansei da estupidez, das fake news, de pessoas que aceitam a insanidade que se espalha com rastilho de pólvora, como a velocidade da luz. Cansei da chuva de propagandas, de algoritmos criados para pensar por mim, da coleta de dados pessoais através do celular, o ouvidor mor de minhas conversas.

Li no LinkedIn, que a Inteligência Artificial é capaz de conferir o nível de empatia de alguém – considero arriscadíssimo que isso ocorra. A IA é um avanço imenso, mas nas mãos de insanos, sem empatia, que lucram com o sofrimento alheio, tudo o que a humanidade criou será destruído.

Cenas para reflexão

Em uma pesquisa sobre imigração italiana, num final de tarde, vi uma “nona” na janela de uma casa de madeira com beirados com singelos lambrequins. Cumprimentei-a e lhe perguntei: “Está descansando?”
Ela respondeu: “El vechio el riposa solo quando che l’è morto!”

Se existe um legado que deixo, é que nada substitui um abraço ou a moça que me viu na praça tempos atrás não teria vindo até mim para dizer: “Podes me dar um abraço?” Eu dei. E fiquei feliz. O abraço não pode ser substituído por uma tela.

Deixo também a coragem de enfrentar a vida, de respeitar as pessoas e de observar o mundo por diversos ângulos. A força não está apenas dentro de nós; ela aparece quando nos encontramos, quando damos as mãos, quando compartilhamos sentimentos genuínos. A força está no sublime, no sutil, no instante em que uma ave alça voo e desaparece. A arte está ali também — no movimento que transforma desafios em novos caminhos.

Quem já ouviu? Sempre foi assim, não há jeito, todo político é corrupto, a escola pública é ruim, a saúde pública é um desastre, comunistas comem criancinhas. Este comportamento das pessoas me lembra de Pilatos, o sanguinário que lavou as mãos.

Não se pode desistir, baixar a guarda, perder a utopia. A algum lugar precisamos nos dirigir para diminuir a miséria humana, terei essa indignação até meus últimos dias.

Espero morrer pensando por mim mesma, acionando os arquivos de minha vida. Para isso não é preciso a IA, é preciso afeto, cuidados, segurança e abraços. Bons livros e amigos.

Idosos carregam uma biblioteca na alma. A IA não.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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