A Inteligência Artificial e o Dilema da Humanidade

Ilustração produzida por IA

Minha geração muitas vezes se sente deslocada. A velocidade das transformações tecnológicas nos empurra para um território desconhecido, onde coragem e lucidez se tornam essenciais. Estamos em outro mundo e sabemos disso.

Após uma pós-graduação em Dependência Digital, permito-me afirmar: a tecnologia pode nos adoecer profundamente. Não apenas por atuar no sistema neurológico, mas por interferir na subjetividade, no raciocínio e na criatividade.
A IA substituirá nosso pensamento? Será capaz de controlar nossos afetos?

Meu medo é que as próximas gerações, ao atrofiarem áreas neuronais, percam a capacidade de pensar, de desenvolver o raciocínio criticamente. Sem o pensamento crítico, o ser humano se torna domesticável, manipulável, será dominado e descartado.

A Inteligência Artificial é para servir ao bem comum ou para dominar os povos? Ao perdermos a capacidade de raciocinar e de tomar decisões por nós mesmos se torna fácil sermos dominados.

Vivências Pessoais

Anos atrás, uma peça teatral em Porto Alegre roubou o meu sono. Robôs se apaixonavam por humanos que viviam em uma sociedade automatizada. Lá, os robôs comandavam e as pessoas se tornaram burros de carga.

No século XIX, as máquinas substituíram o trabalho braçal campesino e as pessoas migraram para as cidades onde não havia emprego. A miséria aumenta quando o trabalho humano é substituído pela tecnologia.

O filme Soylent Green – Quando o Mundo Acabar demonstra esse processo. A falta de alimentos como anteriormente gerou um novo sistema de produção. Os mortos eram transformados em pílulas verdes para que pudessem alimentar os vivos.

O livro Não verás país nenhum (Ignácio de Loyola Brandão) faz pensar em nosso mundo e no quanto o pensamento é importante para a sobrevivência na Terra. Sem raciocínio, capacidade de compreensão e análise seremos incapazes de discernir e fazer escolhas.

O que George Orwell prenunciava, deixou de ser metáfora. Seu livro 1984 se encontra em marcha. O que era distopia se torna realidade.

Muitos escritores e artista percebem sinais na sociedade antes dos fatos ocorrerem.

Em uma entrevista na Carta Capital, o cientista Nicolelis afirmou que a Inteligência Artificial vem causando um delírio coletivo: não precisamos mais aprender, interpretar ou produzir. Ela fará tudo por nós? Há muitas pessoas que o consideram pessimista, no entanto, é através do conhecimento científico e da percepção aguçada que a sociedade percebe os problemas e busca solucioná-los.

O prompt se tornou uma prótese cognitiva, enquanto nossos textos se alteram, perdem sentido e deixa de ser nosso. As imagens deformam a informação e retratam o interesse de quem?

A Ambivalência da Tecnologia – O Risco de Pararmos de Pensar

Avanços tecnológicos sempre existiram. Reconheço os méritos da IA: organização de dados, agilidade na coleta e na organização de dados, criatividade técnica, soluções rápidas. Mas a velocidade assusta.
E o que mais assusta não são as máquinas, são os humanos que as utilizam para matar, dominar e destruir.

Você sabe que a IA invade a sua privacidade, cria desejos que você não tem, estimula o consumo sem controle, gera vícios, facilita impulsos e é capaz de nos desconectar do mundo? O algoritmo interfere na moral, na família e na capacidade fundamental e necessária para a sobrevivência: a de distinguir entre o bem do mal.

A hiperestimulação causada através das telas faz com que o cérebro entre em exaustão, perca o foco e a capacidade de articular o pensamento além de reduzir a capacidade de análise e de crítica.

Vivemos um cenário de excesso de informação e de estímulos, as respostas instantâneas não exigem esforço mental. O scroll infinito nos faz “ver sem pensar”, “decidir sem analisar”, “agir sem compreender”.
A máxima “menos é mais” parece perder espaço.

Cuidado! Os ciclos históricos provam.

A destruição da subjetividade é ato intencional. Sem a subjetividade, seremos apenas números. Sem ela, perdemos o que é fundamental.

A arte e a literatura formam o lastro da humanidade. Constroem sentido, fortalecem vínculos, acolhem dores e nos auxilia a nos manter mais inteiros. Se há falta de percepção e compreensão do que nos constitui humanos, como convivermos em sociedade? A nossa imagem se complementa através do olhar dos outros. Somos seres sociais.

Sem percebermos o que está além da imagem, sem distinguirmos o que é fundo e o que é figura, entramos na caverna de Platão. E correremos o risco de acreditar apenas na escuridão.

Ao substituirmos processos subjetivos por máquinas, não inovamos. O que ocorre é a desumanização dos seres humanos: é a nossa subjetividade que se encontra em risco.

Se há caminhos, é importante apontá-los para avançarmos juntos sob os valores da equidade, da liberdade, da responsabilidade e com consciência histórica.

Talvez a questão não seja se a esperança é a última que morre. Esta é a pergunta: o que estamos fazendo, concretamente, para mantê-la viva?

A Arteterapia: Um Suporte Que Importa

Diante do uso massivo de aplicativos que promovem dependência digital, arteterapia é uma necessidade. É preciso cuidar da saúde mental, estimular nossa criatividade, nossa subjetividade e nossa capacidade de tomar decisões. Para isso, precisamos cuidar também de pessoas que sofrem com dependência digital.

Nesse cenário, destaca-se a atuação da UBAAT (União Brasileira das Associações de Arteterapia), que há décadas sustenta e legitima a arteterapia no Brasil.

Sua regulamentação no Congresso Nacional representa um avanço no reconhecimento oficial da atra através de seus recursos artísticos como um cuidado importante em saúde.

Caro leitor – Agradeço sua leitura. Precisamos conversar sobre temas que nos afligem. Deixe logo abaixo o seu recado.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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Respostas de 11

  1. Marilice,
    Seu texto é muito bom e bem fundamentado. A decisão de uso da tecologia sempre recairá para o ser humano. Assim foi com todas as grandes invenções, desde a pedra lascada que ajudava na caça, até os drones de hoje, que infelizmente estão sendo usados na guerra.
    Não acredito em um futuro totalmente distópico. Não compartilho da visão completamente negativa do Nicolelis. Se me permite dizer, ele é um arauto do fim do mundo.
    No entanto concordo com você. O celular e as redes sociais infinitas estão absorvendo cada vez mais as pessoas, e mutilando a forma de pensar. Mas, também tenho visto um aumento no número de leitores de livros e de Clube de Leitura. Em minha opinião isso é um ótimo sinal. Nem tudo está perdido.
    Tem tanta coisa envolvida neste assunto que fica difícil discorrer em um único post. Agora, é urgente que se faça reflexão e se debata este tema de forma ampla e irrestrita. Tenho certeza que seu texto primoroso levará muitas pessoas a isso.
    Parabéns!

  2. Concordo plenamente.
    Há aspectos bons, mas, do meu ponto de vista, analógica que sou, os negativos são muito maiores.
    E, parece, não temos como fugir disso.
    Um abraço, Marilice!

  3. Assunto super atual, muito sensível e verdadeiro, assim como é a Marilice Costi. Nos faz pensar, sobre como precisamos ter senso crítico para conviver com a tecnologia, sem esquecer o mais importante, o humano.

  4. Marilice, adorei a matéria e como estudante de psicologia entendo completamente. Me fez pensar quem algo que meu filho vive em Amsterdã: o europeu talvez venha na contramão. Em Amsterdã estão formando “Coletivos”, onde pessoas se reúnem com os mesmos interesses artísticos e se autopromovem através de exposições e apresentações. Ele amanhã apresentará suas fotos, o trabalho dele é com câmera analógica. Achei fantástica a ideia de não deixar morrer a crinatividade e sensibilidade. 😊🥰

  5. Marilice retrata uma preocupação que assombra quem observa a grande mudança tecnológica que poderia ser um benefício ou uma nova escravidão. Suprimir a reflexão, o raciocínio e imaginação pode tornar o mundo um mero conglomerado de autômatos.
    Estimular a criatividade, não deixar morrer a capacidade de amar, observar e criar é o grande desafio . Parabéns.

  6. concordo contigo, o estímulo à criatividade é fundamental em tempos de automatização. Hoje é a IA, talvez amanhã seja outra ameaça. Mas, parênteses aqui, confesso, me preocupa mais as mudanças climáticas em termos de ameaças à raça humana no planeta.
    Com relação à IA, entendo que nossa crise é mais ética do que de qualquer outra coisa. Ela é meio, ferramenta. O uso, seja positivo, como em pesquisas para saúde, ou negativo, ou para assassinar, matando primeiro pra depois confirmar se foi o alvo “correto”, e dado por humanos com ganância sem medida e limite.

  7. Marilice,
    É valiosa a sua reflexão sobre a IA, a nova personagem que hoje ocupa grande parte de nossa realidade. Ela é assustadora ao mesmo tempo em que facilita tarefas.
    Acredito na arte como cura, na arte que surpreende a cada olhar e a cada gesto. E você sabe se expressar como poucos.
    Você traz – nas cores e nos textos – a realidade como melhor lugar do mundo, seja ela colorida ou em preto e branco, mas ainda assim realidade.

  8. Reflexões necessárias que nem todos estamos dispostos a fazer para aliviar a sensação de que não estamos sós diante de um território inóspito. A arte tem o condão de se tornar o elo. Belo texto!

  9. Aritigo certeiro, direto ao ponto… entre a objetividade da maquina e a subjetividade do homem, reside o pensamento critico que se constroi nas experiencias e vivencias, nos pontos de vista, sentimentos, empatia, interacoes sociais e memorias. Mas dizem que a maquina pensa? acho que a maquina processa e organiza informacoes nela jorradas. Informacao se distingue do conhecimento.
    IA pode ate se comunicar verbalmente, mas a comunicacao nao-verbal e ainda qualidade humana.. Vem do pensamento e sentimento humanos, e a luz que falta a escuridao da Caverna do Platao.

    Arte-terapia conecta… devia ser ensinada na grade basica do curriculum escolar.

  10. Excelente reflexão. Desmascara o velho engodo de que o aumento de tecnologia trará benefícios para a humanidade. Preocupo-me com as novas gerações. O pior pode acontecer. A atualidade de George Orwell é assustadora.
    Obrigada por compartilhar.

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