A palavra é bálsamo. Alguém já escreveu isso e isto: a palavra é resistência.

As palavras permanecem vivam entre os ciclos e os desafios que se repetem?

Há palavras que nos esgotam e exigem que penetremos através dos muros, que entremos em cavernas e depois saiamos delas.

Palavras carregam necessidades humanas de pertencimento e adequação.

A palavra detesta o medo, a obrigação, o pastor, o censor. A palavra livre não separa partes, ela integra a alma no corpo, une a razão ao coração.

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade. Eduardo Galeano (1997)

Sentipensar

A palavra e a arte são amálgamas do tempo quando me sinto inadequada a este mundo.  

Meu sentipensadora.

As palavras estão postas e compõem um quebra-cabeça. Procuro as peças perdidas no “vendaval noturno” (1).  Me resgata, me reconecta na tentativa permanente para compor a minha inteireza. Minha  palavra resiste e me oxigena.

Protegidas das vozes, as palavras adoram o silêncio das gavetas. Ali elas se reencontram protegidas dos ventos e aguardam para compor a tela, a cena, a personagem. Palavras fora do enquadre? Nem sempre com nexo, as palavras também confundem, andam em curvas, buscam sentido e organização.

Há vezes em que as encontro sujas e as lavo com escova e sabão. O que me salva é que as palavras sempre encontram o caminho se vierem com verdade. 

A escrita surge como forma de recompor a própria inteireza, reunindo pedaços espalhados pela vida e enfrentando a tentativa histórica de separar corpo e alma, razão e emoção.

________________

BIBLIOGRAFIA

GALEANO, Eduardo. Celebração de bodas da razão como coração. In: O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM,1997.

COSTI, Marilice. Ressurgimento. Porto Alegre, 2009 – Prêmio Açorianos 2006 – Livro de poesia.

Gostou? Compartilhe:

Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
Nos COMENTÁRIOS abaixo, deixe sua opinião. Lembre-se de enviar a outros pais, professores e outros cuidadores. Agradeço.

Respostas de 3

  1. Lindo texto, muito bem inspirado, emocionante, e critico, toca em pontos sensíveis da nossa cultura como a educação, a Arte e a criatividade. Acredito que são os alicerces para a formação do ser humano integral.

  2. Marilice.
    Alma inquieta e intransigente na defesa do livre pensar, expõe sua inconformidade contra o que considera padronização cultural que o momento histórico quer impor e contra a separação de corpore et anima.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conteúdo Relacionado