A força da palavra – o legado de meu pai

Z. Demétrio Costi em uma reunião com correligionários em área rural

Há alguns meses, recebi páginas de jornais da época em que meu pai administrou a Prefeitura Municipal de Encantado/RS.

Não pude conter o riso ao mesmo tempo em que imediatamente associei as calúnias às fakenews, que circulam destruindo a idoneidade, a democracia, os direitos humanos, a vida de alguém, a sua história.

Quanto mais estapafúrdias forem as afirmações falsas, mais são compartilhadas. A internet facilita a destruição da idoneidade de pessoas e instituições, da democracia, dos direitos humanos, da vida de alguém: a sua história.

Aprendi com meus pais que a idoneidade de alguém é muito preciosa.  e que basta um estrago para que depois não a possamos mais recuperá-la. É urgente tomar decisões protetivas, o que atualmente, confesso, é muito complicado.

A neurociência comprova: o uso excessivo dos celulares faz com que nosso cérebro modifique a nossa capacidade de compreender e analisar, estimula o hormônio do prazer e vicia.

além do que, o medo que trazemos para que possamos nos proteger dos riscos desde os tempos primevos, é o que nos conecta inconscientemente e através dele, facilmente somos envolvidos no ódio.

Por que falo isso? Porque aprendi que a palavra de meu pai é uma questão de honra.

Mentir é fácil, difícil é sustentar a mentira.

Em outubro de 1937, um panfleto acusou meu pai fazia parte de um grupo que implantava a “DICTADURA ENCANTADENSE”, vinculando seu trabalho exemplar pelo bem público às ações do Presidente Getúlio Vargas.

Com as provas em mãos, Zeferino Demétrio Costi fez denúncia crime. A colônia se manifestou exigindo justiça e, no mês seguinte, o criminoso se retratou e pediu desculpas na frente do Juiz, do Promotor Público e do Defensor, que o acompanhava.

Meu pai, que não gostava de teatro, nem de exposição pública, não compareceu na audiência, representou-o um primo, Guerino Costi.

Naquele mesmo ano, Getúlio proibiu que os italianos se comunicassem em tailan e a imprensa da colônia foi destruída.

Ao ler a matéria, dei-me conta de que sou fruto daquela árvore frondosa imensa e me senti feliz ao perceber no que me tornei através dos exemplos que recebi.

Um fruto nunca cai longe do galho. A palavra para mim é ouro. Para meu pai, o silêncio era ouro.

Nascido em 1904, lembro de sua voz pausada e baixa, do quanto sua força estava na palavra dita. E me entristeço, sinto saudades. Se ele acreditava na palavra das pessoas, o que Seu Demétrio, como preferia ser chamado, diria das fakenews?

Revejo sua testa franzida, o olhar cansado, o silêncio exigido para que pudesse ouvir as notícias da rádio Guaíba. Em seus últimos anos de trabalho, vivia tenso. O mundo sofria mudanças e as preocupações com os negócios eram muitas.

A saudade doi quando a memória penetra no som da grama, onde ele sempre limpava os sapatos, antes de entrar em casa. Papai ainda é meu herói. Seu legado me orgulha, gera pertencimento, sustenta minha raiz. E lhe sou grata.

Publicado no Correio do Povo, jornal impresso e digital, Porto Alegre, 06 jun 2026.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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