(Série “Feridas que Migram” — Parte III — Conclusão)

Há feridas que não sangram. Feridas que não aparecem em exames, que não deixam marcas na pele, que não se explica com palavras simples. Muitas delas atravessam gerações, moldam comportamentos, silenciam famílias.

No primeiro artigo dessa série, falamos do instante íntimo em que o chão se move, quando se decide partir para o desconhecido. No segundo, quando o país expulsa seus filhos. Neste artigo (III) é hora de olhar para o que está por baixo de tudo isso. E é aqui que Vladimir Safatle se torna indispensável.

A ferida como bússola

Não há projeto de país sem elaboração de traumas que atravessam gerações. Não há futuro sem atravessar o passado. Não há norte sem tratarmos as nossas feridas. O Brasil, historicamente, escolheu não olhar, preferiu esquecer a enfrentar, optou pela conciliação como anestesia. Escolheu a fuga como método.

Quem não olha para suas feridas acaba condenado a repeti-las marcando gerações. A ferida, diz o sociólogo, não é algo a ser escondido — é algo a ser compreendido. Ela é bússola. É mapa. É revelação.

Reconhecer a violência

O Brasil não reconhece sua violência estrutural, a sua desigualdade histórica. Não se importando com o abandono que produz, não reconhece que o racismo sustenta suas instituições e nem o quanto a precariedade molda suas relações. E, quando um país não reconhece suas dores, seus cidadãos também não se reconhecem nele.

Esses motivos são de muitos que partem atrás de oportunidades — seguem em busca de valor, de visibilidade. Não se sentem pertencentes e nem se sentem cuidados.

Migrar é um gesto de sobrevivência emocional. Uma forma de resistência.

A subjetividade ferida

Safatle insiste: a subjetividade é construída sobre feridas. E, quando essas feridas não são elaboradas, elas se tornam destino.

Famílias atravessadas por frustrações econômicas geram gerações que buscam longe o que não encontraram perto. Pais mal cuidados pelo Estado criam filhos que não acreditam no país. A ausência de futuro se mistura à ausência de afeto. A falta de oportunidades se mistura à falta de pertencimento.

Migrar, então, não é apenas movimento geográfico: é um movimento psíquico. É fuga: a negação de um espelho que lhe devolve uma imagem que não é reconhecida. É desejo de cura.

Sintoma da ferida não elaborada

Não é por acaso que regimes autoritários proibiram a Psicanálise. Pensar é perigoso para quem governa pelo pavor. Refletir é subversivo para quem precisa de obediência. Elaborar a dor é revolucionário para quem lucra com o sofrimento. Safatle alerta para outro perigo: quando uma sociedade não elabora suas feridas, ela se torna presa fácil do fascismo, que se alimenta do medo. E o medo nasce da dor não compreendida. Da ferida não tratada. Do trauma não elaborado.

O Brasil, ao negar suas feridas, abre espaço para discursos que prometem ordem sem cura, força sem cuidado, segurança sem reflexão. Enquanto isso, seus jovens partem — não apenas por falta de oportunidades, mas por excesso de medo.

A escola: território da ferida e da cura

A escola brasileira é o lugar onde a ferida aparece com mais clareza. Professores exaustos. Pais desorientados. Crianças desprotegidas. Violência crescente. Desvalorização constante.

A escola é o espelho da nação. E o espelho está quebrado.

Enquanto países nórdicos e asiáticos investiram em educação, regulação digital e proteção da infância, o Brasil ainda discute se Paulo Freire tem valor. A negação de Freire não é pedagógica — é sintoma. Sintoma de um país que teme pensar. Que teme olhar para si. Que teme enfrentar suas próprias feridas.

A elite que abandona o país que a formou

Há uma ferida não nomeada: a elite econômica brasileira, que poderia reconstruir o país, prefere abandoná-lo.

Transfere seu dinheiro. Exporta seus filhos. Financia campanhas bilionárias. Corrompe. E pouco devolve ao território que a sustentou.

É uma elite que não se reconhece brasileira — e, por isso, não reconhece o Brasil.

O norte que ainda não encontramos

Só encontraremos direção quando encararmos:

  • a violência que naturalizamos,
  • a desigualdade que aceitamos,
  • o abandono que reproduzimos,
  • a precariedade que normalizamos,
  • a dor que evitamos.

Migrar não é solução. É sintoma de que existe uma ferida exposta, que é difícil de curar, que gera medo. Safatle nos oferece uma chave: o norte não está fora — está na ferida. Quando nos conscientizamos disso, a ferida (o trauma) se transforma em possibilidade e pode ser transformada. Quando renomeada, quando compreendida, pode ser curada.

Quando a ferida é possibilidade

E há esperança? Uma ferida também é possibilidade. É ruptura, mas também é abertura. É perda, mas também é caminho. E quando há coragem de olhar para ela — como Safatle nos convoca a fazer — encontramos um norte que não seja fuga, mas retorno. Não retorno geográfico, mas retorno a nós mesmos. Ao país que existe dentro de nós, aquele que ainda podemos ser. Uma pátria interna e possível, a casa que podemos aprender a guardar e a cuidar.

Migrar é fuga, é sonho. Migrar é uma ferida. E a ferida tratada abrirá espaço para um futuro possível.

Continuaremos exportando nossos jovens com seus sonhos? O que você sugere? Role a página, deixe seu comentário.

ARTIGO I — Quando o chão se move: o instante antes da partida

ARTIGO II — O país que expulsa: ecos de um passado

ARTIGO III — As feridas que nos movem

Entre raízes e sonhos: o impacto das migrações – Marilice Costi

Entrevista com Vladimir Safatle

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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