Entre raízes e sonhos: o impacto das migrações

Quando uma pessoa sai de sua pátria, ela pode ter motivações emocionais, econômicas e sociais. Pouco sabe do que a vida lhe reservará. Terá que desenvolver a resiliência, suportar o distanciamento afetivo, enfrentar a vida em outra cultura, ambientar-se com leis e questões sociais, aculturar-se, criar nova rede de amigos.

O sonho de abandonar um país envolve também a “auto expulsão inconsciente”. Entre o sonho e a realidade, terá que suportar a dor das frustrações, a solidão, o sentimento de abandono e a ausência de pertencimento. A vida lhe exigirá controle de seus impulsos ou não dará conta das mudanças.

Poderá se enriquecer com a experiência, ampliando o seu conhecimento, a única riqueza que ninguém mais lhe tira, o que muito importa em sua própria vida.

O autoconhecimento é importante para que possa compreender os seus motivos.

A imigração de uns – emigração de outros

Nem todo o imigrante sabe de si ao distanciar-se da pátria. No final do século XIX, a Itália desejava expulsar os italianos que haviam sido substituídos por máquinas nos campos, o que gerou problemas imensos em suas cidades. Nessa época, o Brasil, era preciso impedir o avanço dos espanhóis pelas fronteiras ocupando o território, gerar novas riquezas e arrecadar mais impostos. A abolição da escravidão se concretizara, mas criara bolsões de miséria. No campo, era preciso mão-de-obra para substituir os negros e a indústria se espalhava pelo país e precisava de operários.

As migrações continuam ocorrendo entre os países, mas pouco se questiona as causas reais, o quanto as guerras provocam, os governos promovem saídas ou acolhem os que chegam, como vem ocorrendo com a chegada de ao Brasil de muitos sul-americanos e senegaleses, por exemplo. Há causas, elas estão além desses corpos jogados de um continente ao outro, de um país a outro.

Mão-de-obra em movimento

No início do século XXI, uma leva enorme de jovens foi estimulada a ir embora do Brasil. O consumo tomara conta do país, a vida mudou de sentido, e a desesperança passou a construir sentidos. O sonho de uma vida melhor – que os italianos também tiveram ao vir para cá – se espalhou entre os universitários. Não queriam trabalhar como seus pais. Bolsas passaram a ser ofertadas em vários países para aprenderem a Língua e muitos brasileiros foram embora. Era corrente o desvalor dos recém-formados que decidiram fazer a vida lá fora.

Era a liberdade esperada em lugares mais seguros, mas pouco sabiam do que ir-se embora era também abandono. Pouco reconheciam as mudanças sociais que ocorriam, interessados no lazer, na segurança e no dinheiro que julgavam ser mais fácil.

As transformações eram efervescentes, novo ciclo tecnológico passou a tomar conta e um desses países, a Austrália, tinha interesse em mão-de-obra universitária em trabalhos braçais que sua população não queria mais. O caldo pronto para repetir-se o que ocorrera lá atrás.

Sociologia e economia andam juntas, mas também é preciso compreender o caminho interno das pessoas, o medo que as expulsa da pátria-mãe, o distanciamento necessário ao próprio crescimento.

A migração nasce de decisões complexas. Entre a política, a economia e o sonho, estão vidas humanas em movimento. Para quem domina territórios, manipular desejos torna-se estratégia: interesses se sobrepõem às esperanças, transformando escolhas individuais em engrenagens de poder.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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Respostas de 2

  1. Tema muito premente para nós brasileiros, pois somos todos descendentes de imigrantes e os nossos descendentes, por sua vez, buscam oportunidades em outros países, por vezes aquele mesmo país de onde provêm nossos ancestrais… parabéns!

  2. Marilice lembra a saga dos nossos avós italianos com o sonho da América America e volta seu olhar para o contra fluxo da geração do início deste século na busca de sonhos julgados impossíveis aqui. Uma reconstrução pessoal psicológica e mesmo física se faz necessária para não se correr o risco de perder a identidade .

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