A Inteligência Artificial e o Dilema da Humanidade

Ilustração produzida por IA

Vivemos em outro mundo. Minha geração muitas vezes se sente deslocada. A velocidade das transformações tecnológicas nos empurra para um território desconhecido, onde coragem e lucidez se tornam essenciais. Estamos em outro mundo — e sabemos disso.

Minha especialização em Dependência Digital me permite afirmar: a tecnologia pode adoecer profundamente. Não apenas por atuar no sistema neurológico, mas por interferir na subjetividade, no raciocínio e na criatividade humana.
A IA tenta substituir o pensamento — mas não substitui afetos.

Vivemos uma corrida tecnológica que pode organizar… ou fragmentar ainda mais a sociedade. A grande questão permanece: até onde os donos dos sistemas permitirão que a IA seja usada para o bem comum?

Anos atrás, uma peça teatral em Porto Alegre me tirou o sono. Robôs que amavam humanos, uma sociedade automatizada, um futuro sombrio. Percebi ali que aquilo que parecia ficção já estava em marcha. O que 1984 – livro de prenunciava deixou de ser metáfora.

A História comprova: quando o trabalho humano é substituído, a miséria cresce.
No século XIX, máquinas tiraram milhares das fábricas e os jogaram nas ruas.
Hoje, a automação cognitiva ameaça não apenas empregos, mas a própria vivência humana.

A Distopia que Deixou de Ser Ficção.

O Risco de Pararmos de Pensar

Meu medo — porque não se trata mais de receio — é que as próximas gerações percam a capacidade de pensar criticamente. Sem pensamento, o ser humano se torna domesticável, manipulável, dominado.

Na entrevista na Carta Capital, o cientista Nicoledis afirma que a IA produz um delírio coletivo: não precisamos mais aprender, interpretar ou produzir.

O prompt se tornou uma prótese cognitiva.
E, ao mesmo tempo, nossos textos se alteram, sentidos se perdem, imagens se deformam.

A Ambivalência da Tecnologia

Avanços tecnológicos sempre existiram. Reconheço os méritos da IA: organização de dados, agilidade na coleta e na organização de dado, criatividade técnica, soluções rápidas. Mas a velocidade assusta.
E o que mais assusta não são as máquinas — são os humanos que as utilizam para matar, dominar e destruir.

No entanto, quem sabe que a IA invade a privacidade, cria desejos que não temos, estimula o consumo sem controle, gera vícios e facilita impulsos, nos remove da sociedade. Além disso, o algoritmo interfere na moral, na família e na capacidade de distinguir o bem do mal.

Hiperestimulação e Perda da Capacidade Crítica

Vivemos um cenário de excesso: informação, estímulos, respostas instantâneas.
O scroll infinito nos faz ver sem pensar, decidir sem analisar, agir sem compreender.
A máxima “menos é mais” parece perder espaço.

A arte e a literatura sempre foram o lastro da humanidade. São elas que constroem sentido, fortalecem vínculos, acolhem dores e nos tornam inteiros.

Sem perceber o que está além da imagem, sem distinguir fundo e figura, entramos novamente na caverna.
E corremos o risco de acreditar apenas na escuridão.

É a nossa subjetividade que se encontra em risco. Ao substituirmos processos subjetivos por máquinas, não inovamos — desumanizamos.

É preciso nomear o que compromete a subjetividade — porque é ela, a subjetividade, que nos faz singulares, que impede que sejamos apenas números.

Caminhos Possíveis

Se há caminhos, precisamos apontá-los. Precisamos avançar juntos, com equidade, responsabilidade e consciência histórica.

Talvez a questão não seja se a esperança é a última que morre.
A pergunta é: o que estamos fazendo, concretamente, para mantê-la viva?
Se há caminhos, que os trilhemos juntos.

A Arteterapia Como Suporte Que Importa

Nesse cenário, destaca-se a atuação da UBAAT – União Brasileira das Associações de Arteterapia, que há décadas sustenta e legitima a arteterapia no Brasil. Sua regulamentação no Congresso Nacional representa um avanço civilizatório: o reconhecimento oficial da arte como cuidado em saúde.

Diante do uso massivo de aplicativos que promovem dependência digital, arteterapia não é luxo — é necessidade. É preciso cuidar da saúde mental, estimular nossa criatividade, nossa subjetividade e nossa capacidade de tomar decisões. Para isso, precisamos cuidar também de pessoas que sofrem com dependência digital.

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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