ARTIGO I — Quando o chão se move: o instante antes da partida

(Série “Feridas que Migram” — Parte I)

Há um momento, quase sempre silencioso, em que o chão começa a se mover.
Não é terremoto, não é desabamento, não é tragédia. É algo mais íntimo: um deslocamento interno, uma rachadura que se abre devagar, como se o corpo percebesse antes da consciência que já não há onde permanecer.

Migrar começa aí — muito antes da mala, do passaporte, da passagem comprada em dez vezes. Começa quando o território deixa de ser chão e passa a ser peso. Quando o país, que deveria ser casa, se torna um lugar onde o ar não entra inteiro.

Quem parte leva mais do que roupas. Leva silêncios. Leva medos. Leva a sensação de que algo ficou para trás muito antes de ir embora.

O instante que ninguém vê

Há quem imagine que migrar é um gesto súbito, uma decisão tomada diante de uma oportunidade brilhante. Será?

Migrar é um processo subterrâneo. É como água infiltrando-se por frestas invisíveis até que, um dia, a parede cede.

O instante antes da partida é feito de pequenas dores acumuladas:

  • a insegurança que se repete,
  • o salário que não chega,
  • o medo que cresce,
  • a violência que se aproxima,
  • a escola que não protege,
  • o futuro que não se anuncia.

É também feito de ausências:

  • o Estado que não cuida,
  • a cidade que não acolhe,
  • a família que não sabe como amparar,
  • o país que não reconhece seus filhos.

E, no meio disso tudo, um desejo quase infantil: o de respirar.

Entre viajar e migrar há um precipício

Viajar é escolha. Migrar é consequência.

Quem viaja sabe que volta.
Quem migra sabe que não volta igual — e às vezes não volta nunca.

A viagem é movimento.
A migração é ruptura.

A viagem é sonho.
A migração é ferida.

E, no entanto, muitos brasileiros confundem uma coisa com a outra. Talvez porque, para suportar a dor da partida, seja preciso revesti-la de esperança. Talvez porque o imaginário coletivo tenha transformado o “ir embora” em símbolo de vitória. Talvez, porque admitir que estamos fugindo — e não apenas buscando — seja duro demais.

Mas a verdade é que migrar exige coragem. E coragem, quase sempre, nasce do medo.

O país que empurra

O Brasil empurra seus filhos para fora com a mesma força com que tenta atraí-los de volta em discursos vazios. Empurra quando não oferece segurança. Empurra quando não garante educação. Empurra quando transforma o cotidiano em sobrevivência. Empurra quando naturaliza a violência. Empurra quando desvaloriza o trabalho, a ciência, a cultura, a escola.Empurra, quando não cuida.

E quem não é cuidado aprende cedo a procurar abrigo em outro lugar.

O que se leva quando se parte

Quem parte leva consigo uma espécie de mala invisível. Dentro dela, cabem coisas que não passam no raio-x do aeroporto:

  • a memória de um país que poderia ter sido,
  • a saudade antecipada do que ainda nem se perdeu,
  • a culpa por deixar para trás quem não pode partir,
  • a esperança de que, em outro lugar, a vida seja mais leve,
  • a sensação de que o corpo não pertence mais ao território onde nasceu.

Leva-se também a ferida — aquela que não cicatrizou, pois nunca foi tratada.
A ferida da desigualdade, da violência, da falta de oportunidades, da ausência de Estado. A ferida familiar, transmitida de geração em geração, como um legado involuntário.

Migrar é carregar essa ferida para outro país, esperando que o ar estrangeiro a cure. Mas feridas não cicatrizam com distância.
Cicatrizam se houver cuidado.

O abismo que se abre

Entre o desejo de partir e o ato de partir existe um abismo.
É nele que moram as dúvidas, os medos, as noites mal dormidas.
É nele que se pergunta:
“E se eu não conseguir?”
“E se eu não me adaptar?”
“E se eu me arrepender?”
“E se eu nunca mais voltar?”

Mas, ao mesmo tempo, é nesse abismo que nasce a força.
A força de quem sabe que permanecer também dói.
A força de quem entende que ficar pode ser uma forma de desistência.
A força de quem escolhe o desconhecido porque o conhecido já não sustenta.

Migrar é saltar — sem saber se há chão do outro lado.

O começo de uma ferida maior

Este primeiro artigo é sobre esse instante: o momento em que o chão se move.
É sobre o início da migração — não geográfica, mas emocional.
É sobre a primeira rachadura, aquela que anuncia que algo precisa mudar.

Nos próximos textos, mergulharemos mais fundo:
na história que se repete,
nas feridas que atravessam gerações,
e na teoria que nos ajuda a compreender por que partimos.

Porque migrar não é sonho.
Migrar é sintoma.
E toda ferida, para ser curada, precisa primeiro ser vista.

ARTIGO II — O país que expulsa: ecos de um passado que não passa

ARTIGO III — As feridas que nos movem: Safatle e o norte que ainda não encontramos

Entre raízes e sonhos: o impacto das migrações – Marilice Costi

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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Respostas de 10

  1. Um artigo muito eloquente e de muita sensibilidade, que retrata uma grande realidade, as dores, incertezas e feridas da migração.
    A ruptura com a família, com o bairro, os amigos, a cultura e a pátria.
    Parabéns, muito bem logrado.
    Desejos de muito sucesso!

  2. Gostei muito e me levou à um passado distante, quando muitos, como meus bisavós vieram apagando o caminho de volta. Seguir em frente como único recurso, sem opções de escolha, agarrando cada centímetro de terra e ajudando a construir um novo país. Ansioso pelo próximo capítulo.

  3. Oi. Parabéns pela sensibilidade de observar a questão tão dolorida da imigração.
    Sair da sua pátria é abandonar suas raizes e sua herança, por pura desesperança
    E realmente nosso país não tem cuidado bem de seus filhos.

  4. Nesse primeiro artigo, a dor se mostra uma arte, assim, fico a espera dos proximos capitulos que provavelmente carregarao mais dores, e consequentememte mais arte. Que estilo peculiar! adorei…

  5. Muito sensível seu artigo! Não precisamos sair do País, quando saí do nosso estado senti o mesmo, principalmente relacionado a pouca oferta de trabalho digno na arquitetura e dói ficar longe das pessoas que muito amo ❤️.

  6. Parabéns pela primeira parte!! A realidade descrita como uma verdadeira obra de arte!!
    Aguardo a continuação, ansiosamente!
    Passei por isto e posso afirmar que não é imaginação!

  7. Como sempre seus artigos são explicativos e confortam muitos corações. Principalmente quem quer fugir de algo inexplicavel.

  8. Parabéns, gostei muito do seu texto.
    Meu filho foi embora para Portugal, lendo o seu escrito, muitas questões foram esclarecidas.

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