Tenho muitas preocupações com as crianças de hoje. Décadas atrás eu me preocupava com meus filhos e o tempo assistindo televisão. O aparelho era desligado e não havia negociação antes dos temas feitos e do banho no final da tarde, quando poderiam assistir desenhos e havia controle dos horários das atividades escolares, do banho e da hora de dormir.
Meus filhos brincaram muito. Quando eu tinha provas na faculdade, eles iam para Passo Fundo, na casa onde havia animais, pátio e a presença dos primos. Tive o privilégio de poder contar com meus pais, que sabiam que meus filhos dependiam só de mim e que eu precisava estudar para poder mantê-los.
Não é o que se vê hoje: telas importam mais do que vivências. As relações afetivas são sem corpo, sem abraços, sem acolhimento e cuidados que só os avós são capazes de dar.
As telas seduzem mais do que a convivência, os limites não são claros e os avós são incapazes de competir com a sedução das telas. E, sob o olhar da criança, incapaz de compreender e discernir o que lhes faz bem ou mal, preferem estar sozinhos em seus quartos fazendo jogos, porque isso também exige menos dos pais.
Como lembra Salvador Célia, é no brincar que a criança e o adulto descobrem sua criatividade, sua potencialidade e o próprio eu; é no espaço do brincar que a comunicação significativa acontece.
Desenvolvimento cerebral e o impacto das telas
O cérebro infantil está em formação intensa, especialmente no córtex pré‑frontal, responsável por atenção, autocontrole, planejamento e empatia. Essa região amadurece lentamente e depende de experiências reais, relações humanas e brincadeiras para se desenvolver.
O uso excessivo de telas interfere nesse processo porque:
- oferece estímulos rápidos e recompensas imediatas, dificultando o autocontrole;
- reduz a capacidade de manter atenção em atividades mais profundas;
- aumenta impulsividade e diminui tolerância à frustração;
- reduz interações sociais reais, essenciais para o desenvolvimento emocional;
- substitui experiências motoras e sensoriais fundamentais para conexões neurais saudáveis.
O risco maior está no desequilíbrio: telas ocupando o lugar de relações, movimento e brincadeira, elementos indispensáveis para o desenvolvimento do cérebro e da personalidade.
O brinquedo: base do desenvolvimento
Brincar é uma necessidade biológica e cultural. É brincando que a criança organiza emoções, experimenta papéis sociais, desenvolve criatividade e fortalece habilidades cognitivas e motoras. Brincadeiras livres — especialmente ao ar livre — ativam áreas cerebrais que nenhuma tela consegue estimular.
Brincar permite que a criança:
- desenvolva coordenação motora e consciência corporal;
- aprenda a negociar, cooperar e resolver conflitos;
- exercite imaginação, linguagem e pensamento simbólico;
- fortaleça conexões neurais ligadas à aprendizagem;
- construa autonomia e segurança emocional.
Quando o brincar é reduzido e substituído por consumo digital passivo, perde‑se um dos pilares mais importantes da infância — e um dos caminhos mais profundos de construção do eu, como aponta Salvador Célia.
A presença adulta como proteção e referência
Apesar das mudanças culturais, as crianças continuam precisando de adultos presentes, disponíveis e confiáveis. Elas buscam atenção verdadeira, limites claros, afeto e segurança.
A presença adulta protege o desenvolvimento cerebral porque:
- regula o uso de telas e organiza rotinas saudáveis;
- oferece modelos de convivência e resolução de conflitos;
- cria oportunidades de brincadeira compartilhada;
- transmite valores, cultura e modos de viver;
- ajuda a criança a interpretar emoções e situações complexas.
Para isso, é necessário que os adultos assumam seu papel, sustentando o espaço onde a criatividade e a comunicação significativa podem florescer. (neste link, baixe o pdf da revista com matéria indicativa de livro sobre cuidados, mães e filhos.
Caminhos práticos para cuidar da infância
Algumas atitudes simples fazem grande diferença:
- estabelecer limites claros para o uso de telas;
- priorizar brincadeiras ao ar livre e atividades que envolvam movimento;
- oferecer brinquedos simples, que estimulem imaginação e interação;
- reservar tempo para brincar junto;
- permitir o tédio, que favorece a criatividade;
- manter rotinas previsíveis e relações afetuosas;
- cultivar conversas e convivência sem distrações digitais.
Cuidar da infância é cuidar do cérebro, da saúde emocional e do futuro. A tecnologia pode ser uma aliada, mas nunca substitui o que só o vínculo humano — e o brincar — é capaz de oferecer.
Sem vivências afetivas e expressão através dos brinquedos, há momentos em que perco a esperança, no entanto, somos nós, os mais experientes, que precisamos encontrar o caminho e demonstrar luz ao fim do túnel.
Então, não desisto.
Como auxiliar no desenvolvimento das nossas crianças?
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