ARTIGO II — O país que expulsa: ecos de um passado

(Série “Feridas que Migram” — Parte II)

Há países que acolhem. Há países que expulsam. E há países — como o Brasil — que fazem as duas coisas ao mesmo tempo, como quem abre a porta e vira o rosto, incapaz de sustentar o olhar.

No primeiro artigo desta série, falamos do instante íntimo em que o chão se move. Agora, é hora de olhar para o movimento maior: o do país que, ao longo de séculos, empurra seus filhos para longe. Não é maldade, é descuido. Não é intenção, nem destino. É a repetição da história.

A história se repete

No século XIX, a Itália expulsou seus próprios cidadãos. A industrialização substituiu a mão de obra campesina, as cidades incharam, a miséria se espalhou como febre. Meus avós migraram ainda pequenos, carregados nos braços, sem saber que deixavam para trás não apenas uma terra, mas uma forma de existir. Naquele tempo, o Brasil precisava ocupar territórios, povoar fronteiras, produzir riqueza. Havia um país que chamava, enquanto outro expulsava. Um país que prometia futuro, enquanto outro negava o presente.

A história não é uma linha reta. Ela é uma espiral.

Hoje, a Europa vive uma crise de mão de obra e volta seus olhos para trabalhadores latino-americanos. Portugal oferece residência a idosos brasileiros, quer mover a economia. Itália e Espanha flexibilizam regras para descendentes, falta mão de obra para serviços que seus habitantes não querem mais. A mesma Europa que expulsou agora acolhe. O mesmo Brasil que acolheu agora expulsa.

A história retorna — não como memória, mas como ferida aberta.

O Brasil que exporta seus filhos

Exportar brasileiros não é novidade. É tradição. O Brasil já enviou soldados para guerras que não eram suas, que permitiu ondas de migração para os Estados Unidos, Japão, Portugal e Austrália, agora assiste a uma diáspora silenciosa — jovens, famílias inteiras, idosos, profissionais qualificados, trabalhadores braçais. Todos buscando lá fora o que aqui dentro não encontraram.

O que temos

O Brasil não garante segurança, não oferece estabilidade, não protege sua gente desvaloriza as escolas, não cuida de suas crianças, não investe em ciência, não valoriza a cultura, nem reconhece seus talentos, não curou suas feridas.

Quando um país não cuida, ele expulsa.

Eco de feridas familiares

A migração não é apenas fenômeno econômico. É um fenômeno emocional.

A ausência de futuro se mistura à ausência de afeto. Pais que não foram cuidados pelo Estado criam filhos que não acreditam no país. Famílias atravessadas por frustrações e precariedades geram gerações que buscam longe o que não encontraram perto. A falta de oportunidades se mistura à falta de pertencimento.

E assim, o Brasil exporta feridas e elas atravessam oceanos. Feridas que se instalam em outros territórios. Feridas que se repetem — porque não foram tratadas.

Escola: espelho da nação

Se quisermos entender por que um país expulsa, basta olhar para as escolas. A escola brasileira é composta de:

  • professores exaustos,
  • pais desorientados,
  • crianças desprotegidas,
  • violência crescente,
  • desvalorização constante.

Enquanto países nórdicos e asiáticos anteciparam os impactos das novas tecnologias e investiram em educação, regulação digital e proteção da infância, o Brasil desvalorizou seus educadores, ainda nega o valor de Paulo Freire.

A escola é o lugar onde a nação se desenvolve, onde o jovem se reconhece. Negar Paulo Freire é sintoma. Sintoma de um país que teme pensar, que teme olhar para si, que teme enfrentar suas próprias feridas.

Uma elite que abandona

Há ainda um outro movimento — silencioso, mas poderoso. A elite econômica brasileira, que pode reconstruir o país, abandona-o. Transfere seu dinheiro para fora. Exporta gente. Financia campanhas bilionárias e nega projetos sociais. Faz lobby. Corrompe. Pouco ou nada devolve ao território que a sustenta. É uma elite que não se reconhece brasileira — ainda sofre influência colonizadora, não valoriza o Brasil.

O passado que não passa

O Brasil repete, no século XXI, os mesmos movimentos europeus do século XIX:

  • êxodo,
  • desigualdade,
  • abandono,
  • violência,
  • falta de projeto,
  • falta de cuidado.

Migrar não é apenas partir. É também ser empurrado por um passado que insiste em não passar.

A história sempre retorna quando não é compreendida. Retorna quando não é encarada, quando não é tratada. O passado não desaparece — ele sobrevive, infiltra-se no presente, molda o que somos e o que insistimos em repetir.

E enquanto não tivermos a coragem de perguntar quem expulsa, enquanto não formos capazes de acolher aqueles que migram, continuaremos, dolorosamente, a exportar os nossos jovens — como se o futuro tivesse de ser buscado longe porque aqui não o deixaremos existir.

(continua no Artigo III — “As feridas que nos movem: Safatle e o norte que ainda buscamos”)

ARTIGO I — Quando o chão se move: o instante antes da partida

ARTIGO II — O país que expulsa: ecos de um passado

ARTIGO III — As feridas que nos movem

Entre raízes e sonhos: o impacto das migrações – Marilice Costi

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Marilice Costi é escritora, poeta, contista. Especialista em Arteterapia e Capacitada em Neuropsicologia da Arte, é graduada em Arquitetura e mestre em Arquitetura pela UFRGS. Publicações: livros e artigos. Foi editora da revista O Cuidador.
 
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Respostas de 2

  1. “A ferida familiar, transmitida de geração em geração, como um legado involuntário.

    Migrar é carregar essa ferida para outro país, esperando que o ar estrangeiro a cure.
    Mas feridas não cicatrizam com distância.
    Cicatrizam com cuidado.”

    “Dessa vez, doeu demais!” 😢

    1. Olá! Regina,
      Reconhecer sentimentos é o caminho principal para fazer as perguntas, respondê-las e promover a cura. Grande abraço. Obrigada pelo teu retorno.

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